A Notícia como Ficção:
- Sandra Lugli

- 11 de jun.
- 3 min de leitura
O silêncio do ouro fala mais alto que os gritos pela ausência
Por Sandra Lugli

O ouro sempre foi a estrela de El Callao, símbolo de uma riqueza que não se preocupa em nomear quem trabalha para extraí-lo. Naquela manhã, a chuva havia decidido não ceder, uma chuva fortíssima, primeiro um aviso e depois, desavergonhadamente escancarada, a escuridão e o silêncio total.
Entre o grito de fortuna do ouro e os gritos de socorro dos homens que escavavam para encontrá-lo, a voz mais alta foi sempre a do ouro.
Os garimpeiros fizeram o que podiam para chamar a atenção dos que estavam na superfície. Mas o céu mostrou-se arrogante, a água invadiu com força os poços e a terra cedeu. A mina, uma garganta antiga e ilegal, implodiu rapidamente ao peso da ganância humana.
Não tardaram em acudir, primeiro os habitantes, depois as ambulâncias e os bombeiros.
Organizaram postos de ajuda, para dar apoio ao desespero humano. A coleta de palavras de consolo parecia insuficiente; as mãos, porém, continuavam a buscar, a escavar, a soprar poeira das lembranças. A lama continuava trazendo roupas, fotos, esperanças que rapidamente se esgotavam. Catorze corpos, espremidos entre cascalho e muita água. Abaixo disso tudo, o ouro continuou imóvel, indiferente ao luto que fazia fila no chão da praça. A cidade colocou velas nas esquinas e, em cada vela, um nome que não cabia mais na boca dos que restaram.
Na igreja, as vozes se misturavam a promessas rompidas; uma mãe abraçava roupas
achadas no meio da lama, na esperança de que, por mágica ou milagre, dentro da roupa,
tomassem vida as formas tão amadas daquele seu filho mais velho.
À noite, diante do poço selado, as famílias deixaram objetos que afinal valiam mais do
que o metal: retratos, roupas, cartas de despedida. Quando os esforços cessaram, restou o trabalho pesado de nomear a dor e de enterrar o que não se pode negociar. O ouro continuou a ser ouro, inalterado e indiferente. A morte continuou a ser morte, implacável em seu trajeto. Entre os dois, a cidade, que vivera pendurada ao brilho fácil, teve que aprender a pesar não o ouro, mas as ausências. Na manhã seguinte, no centro da praça, junto ao poço que continuava selado, ainda havia um retrato encharcado, um sapato quase infantil, com o cadarço desfeito. Ainda algumas velas tremeluziam tentando chamar aqueles que ali não mais estavam. E, entre a lama e as lembranças, um punhado de ouro, lavado pela chuva e pela tragédia, jazia sobre uma pedra, refletindo as chamas e os rostos em silêncio. Por um segundo o metal brilhou como um sol que devolvia, sem piedade, o reflexo dos que já não podiam procurá-lo. E a cidade ficou ali, em círculo, olhando o ouro que continuava a falar mais alto do que qualquer pranto, enquanto a chuva, impiedosa, apagava as pegadas e deixava apenas aquela luz fria sobre os nomes que ninguém mais poderia chamar.
Amanhã tudo voltará ao normal...

Sandra Lugli é uma escritora e tradutora brasileira que se destaca especialmente na literatura infantojuvenil, com obras que estimulam a imaginação e a reflexão dos jovens leitores. Com uma escrita sensível e envolvente, ela aborda temas do cotidiano, sentimentos e a descoberta do mundo de forma leve e acessível. Entre seus títulos mais conhecidos destaca-se o livro “O Resgate do Manatí”, que une aventura e conscientização ambiental. Sua trajetória é marcada pelo compromisso de aproximar as crianças dos livros, transformando a leitura em um hábito prazeroso.
Sandra VR Lugli
Escritora do livro
Uma Tênue Linha
Instagram: @umatnuelinha
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O autor do texto, e não o BLOG Laurel Verbum, é o responsável pelo comentário.






Parabéns pelo texto!!
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