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Eu – Clarice Lispector

Por Eidi Silva



Clarice Lispector foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira

do século XX. Nascida em 1920, na Ucrânia, chegou ao Brasil ainda criança

com sua família e cresceu em Recife e no Rio de Janeiro. Formou-se em

Direito, trabalhou como jornalista e publicou seu primeiro romance, Perto do

Coração Selvagem, em 1943, obra que já revelava seu estilo inovador e

profundo.

Sua escrita é marcada pela investigação do interior humano, pelos

sentimentos, conflitos existenciais e pela busca de compreender a identidade e

a vida cotidiana. Clarice transformou a forma de escrever em língua

portuguesa, usando uma linguagem poética, introspectiva e cheia de reflexões.

Obras como A Hora da Estrela e Laços de Família são consideradas

fundamentais para a literatura brasileira.

A importância de Clarice Lispector está em sua capacidade de revelar a

complexidade da alma humana e abrir novos caminhos para a narrativa

brasileira. Seu legado permanece vivo, influenciando leitores e escritores até os

dias atuais.


Eu – Clarice Lispector

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas;

minhas tristezas, absolutas.

Entupo-me de ausências,

Esvazio-me de excessos.

Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.

Pouco não me serve, médio não me satisfaz,

metades nunca foram meu forte!

Todos os grandes e pequenos momentos,

feitos com amor e com carinho,

são pra mim recordações eternas.

Palavras até me conquistam temporariamente…

Mas atitudes me perdem ou me ganham pra sempre.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência

e sim de sentir, de entrar em contato…


Ou toca, ou não toca.

Análise

Há uma construção de uma identidade intensa, pois logo no início o eu lírico

afirma:

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas;

“minhas tristezas, absolutas”.

O eu lírico tem personalidade intensa e a necessidade de viver

plenamente cada emoção. O verso transmite intensidade e uma vida interior

acelerada.

Há antítese de sentimentos entre os versos, pois o eu lírico estabelece

uma visão dualista da existência, causando uma impressão empática, bem

humana ao leitor que se identifica com tais sentimentos dúbios.

“Entupo-me de ausências,

Esvazio-me de excessos.”

Novamente encontramos a antítese e o jogo dos contrastes para explicar

uma personalidade profundamente sensível.

A pessoa se sente preenchida por aquilo que falta: lembranças, perdas,

saudades e vazios emocionais. É uma imagem paradoxal: o vazio se torna algo

que ocupa espaço.

Surge uma contradição: ao mesmo tempo em que acumula sentimentos

e ausências, tenta se libertar do excesso. Pode representar uma busca por

equilíbrio.

“Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.”

O eu lírico afirma que não se adapta ao que é limitado ou comum. Sua

existência acontece nos extremos das emoções e experiências.

“Pouco não me serve, médio não me satisfaz,”

O verso destaca a busca de profundidade. O superficial ou o incompleto

não consegue preencher suas necessidades emocionais.


“metades nunca foram meu forte!”

Ideia de entrega inteira. A pessoa não aceita sentimentos divididos,

relações pela metade ou experiências incompletas.


“Todos os grandes e pequenos momentos,

feitos com amor e com carinho,

são pra mim recordações eternas.”

O que dá importância aos momentos não é o tamanho deles, mas o

sentimento envolvido. O que dá importância aos momentos não é o tamanho


deles, mas o sentimento envolvido. Revela uma memória afetiva forte. As

experiências carregadas de afeto permanecem na alma.


“Palavras até me conquistam temporariamente…

Mas atitudes me perdem ou me ganham pra sempre.”

O eu lírico reconhece o poder das palavras, mas afirma que elas sozinhas não

são suficientes. As ações têm mais peso que promessas. As atitudes definem

confiança e vínculos.

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência

e sim de sentir, de entrar em contato…

Ou toca, ou não toca.”

O eu lírico afirma que não pode ser compreendido apenas pela razão ou

análise lógica. A compreensão exige empatia, sensibilidade e uma

aproximação emocional verdadeira. O final é uma síntese da poesia:

sentimentos profundos não são explicados apenas racionalmente. Algo

provoca conexão ou não provoca.


Eidi Silva Alencar, paulistana, casada, formada em Letras, Pós- Graduação em

Liderança Positiva e Gestão de Sala de Aula e estudante de Psicanálise.

Morou boa parte da sua infância e adolescência no bairro do Grajaú, zona sul

. Desde cedo demonstrou interesse na literatura e começou a escrever

poesias aos 13 anos de idade. Atualmente mora numa cidade do ABC Paulista,

Rio Grande da Serra. É professora de Língua Portuguesa. Leciona para alunos

do Ensino Médio e Ensino Fundamental de uma escola estadual no Parque

Andreense, divisa com Ribeirão Pires.


Solitude

Na solitude, ecoa o clamor.

O coração em lamento se desfaz.

No peito, uma tempestade infindável de amor,

E o exílio torna-se a paz.

Solitude que perambula em noites sem luar

A procura da leniência que não vem.

Coração sangrando

Desejoso de um consolo que convém.

Na calmaria, encontra a valentia,

No recôndito do espírito, a luminescência.

Alça-se, eleve-se com maestria!

Afronta a dor e a paixão que encanta

Assim, na solitude se faz completa.

Mulher vigorosa, cuja força a acalanta!

Análise


“Na solitude, ecoa o clamor.”

O verso apresenta a solidão não como silêncio vazio, mas como um

lugar onde a voz interior se manifesta. O “clamor” sugere um

pedido, uma dor ou uma necessidade emocional que ressoa dentro

do eu lírico .

“O coração em lamento se desfaz.”

Há intensidade do sofrimento. O coração é personificado e

demonstra fragilidade: o lamento é tão forte que parece dissolver as

estruturas emocionais.

“No peito, uma tempestade infindável de amor,”

A imagem da tempestade representa sentimentos turbulentos. O

amor não aparece como algo tranquilo, mas como uma força

poderosa, difícil de controlar, que agita o interior.

“E o exílio torna-se a paz.”

Há uma mudança de perspectiva: o afastamento (“exílio”) deixa de

ser apenas sofrimento e passa a ser um espaço de recolhimento,

onde pode surgir tranquilidade.

“Solitude que perambula em noites sem luar”


A solitude é personificada como alguém que caminha. A “noite sem

luar” simboliza momentos de incerteza, tristeza ou falta de

esperança.


“A procura da leniência que não vem.”

A voz poética busca suavidade, perdão ou alívio (“leniência”), mas

sente que esse conforto demora a chegar. Existe uma espera

frustrada.

“Coração sangrando”

Verso curto que cria impacto. A imagem do sangue simboliza uma

ferida emocional profunda, reforçando a intensidade do sofrimento.

“Desejoso de um consolo que convém.”

O coração ferido deseja acolhimento e cura. O “que convém” traz a

ideia de algo adequado, necessário para restaurar o equilíbrio.

“Na calmaria, encontra a valentia,”

O poema começa a se transformar. Depois da tempestade

emocional, surge a calma, e nela nasce a coragem. A dor passa a

ser fonte de fortalecimento.

“No recôndito do espírito, a luminescência.”

A luz (“luminescência”) aparece dentro do próprio ser. O verso

sugere uma descoberta interior: a força não vem de fora, mas do

íntimo.

“Alça-se, eleve-se com maestria!”

É um chamado de superação. O eu lírico se ergue acima das

dificuldades com dignidade e domínio de si mesmo.

“Afronta a dor e a paixão que encanta”

A mulher do poema encara tanto o sofrimento quanto o amor. A

paixão é descrita como algo belo, mas também desafiador.

“Assim, na solitude se faz completa.”


A solitude deixa de ser apenas ausência e se torna um caminho de

autoconhecimento. A completude nasce da própria companhia.


“Mulher vigorosa, cuja força a acalanta!”

O encerramento exalta a figura feminina. A força interior é

apresentada como um abraço que protege e consola a própria

mulher.


A figura feminina

Nos dois textos, a mulher surge como alguém profundamente sensível. Clarice

apresenta uma mulher que sente tudo de forma intensa: Pouco não me serve,

médio não me satisfaz." Ela rejeita a mediocridade emocional e busca

autenticidade. Enquanto Eidi Silva , em seu poema, essa mesma sensibilidade

evolui para a resistência: & ;Mulher vigorosa, cuja força a acalanta!" A mulher

não é apenas intensa; ela é resiliente.


A linguagem poética

Há diferenças significativas no estilo.

Texto de Clarice

 Linguagem mais direta e confessional.

 Predomínio da reflexão psicológica.

 Tom intimista e autobiográfico.

 Frases curtas e impactantes.

Texto de Eidi Silva

 Linguagem mais lírica e simbólica.

 Vocabulário erudito.

 Uso frequente de metáforas; luminescência; noites sem

luar.

 Estrutura próxima da poesia clássica.


O percurso emocional

A principal diferença talvez esteja na trajetória emocional dos textos.


O texto de Clarice permanece na afirmação da própria essência. Ele não busca

resolver os conflitos; apenas os assume como parte inseparável do ser.

Enquanto no poema de Eidi Silva, por outro lado, descreve uma jornada: dor,

busca, reflexo, superação e fortalecimento

Porém Clarice diz:; Eu sou intensa.


Eide Silva parece responder; Eu fui ferida pela intensidade, mas encontrei força nela;

Portanto os dois poemas podem ser lidos como complementares. O

texto de Clarice retrata a mulher que vive as emoções em sua máxima

profundidade; já o poema de Eidi Silva retrata a mulher que, após atravessar

essas emoções, encontra luz no próprio interior. Se o primeiro é um retrato da

intensidade da alma, o segundo é um retrato da maturidade conquistada por

meio dessa intensidade.

Em termos simbólicos, Clarice descreve a tempestade; enquanto Eidi

Silva descreve a mulher que aprende a caminhar através dela mesma .


Eidi Silva Alencar, paulistana, casada, formada em Letras, Pós- Graduação em
Liderança Positiva e Gestão de Sala de Aula e estudante de Psicanálise.
Morou boa parte da sua infância e adolescência no bairro do Grajaú, zona sul
. Desde cedo demonstrou interesse na literatura e começou a escrever
poesias aos 13 anos de idade. Atualmente mora numa cidade do ABC Paulista,
Rio Grande da Serra. É professora de Língua Portuguesa. Leciona para alunos
do Ensino Médio e Ensino Fundamental de uma escola estadual no Parque
Andreense, divisa com Ribeirão Pires.



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