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Amelinha Teles: histórias que a ditadura não conseguiu apagar

Atualizado: há 5 dias

Por: Elen de Souza



Me lembro da primeira vez que vi Amelinha Teles. Era uma

manhã fria, apesar de ser verão.

O encontro aconteceu no primeiro dia da formação das Promotoras Legais Populares de

2025. Uma voz suave, calma, que arrancava sorrisos de várias pessoas que estavam ali.

Aquela senhora de semblante doce, com uma didática acolhedora e uma escuta atenta, parecia transmitir serenidade em cada palavra. O que muitas pessoas talvez não soubessem naquele momento é que aquela mulher à nossa frente é sobrevivente de um dos períodos mais terríveis da história do Brasil: a ditadura militar.

Enquanto a ouvia falar, era impossível não pensar na força que existe por trás de sua

trajetória. Não uma força barulhenta ou agressiva, mas aquela que nasce da resistência

cotidiana, da capacidade de seguir em frente mesmo depois de atravessar experiências que poderiam silenciar qualquer pessoa. E talvez seja justamente isso que mais impressiona em Amelinha: sua habilidade de transformar dor em memória, memória em reflexão e reflexão em luta coletiva.

Nascida em Minas Gerais, Amelinha Teles construiu uma trajetória marcada pela defesa da democracia, dos direitos humanos e dos direitos das mulheres, tornando-se uma das vozes mais importantes do feminismo brasileiro. Durante a ditadura militar, integrou a resistência ao regime e, em 1972, foi presa pelo DOI-CODI ao lado do marido, de sua irmã e de seu cunhado, sendo todos submetidos à tortura. Embora essa experiência tenha deixado marcas profundas em sua vida, Amelinha recusou-se a ser definida pela violência que sofreu. Ao longo dos anos, transformou a dor em luta, a memória em denúncia e sua história pessoal em um poderoso instrumento de conscientização e defesa da justiça social.

Ao longo dos anos, ela transformou sua experiência em uma importante contribuição para a preservação da memória histórica do país. Por meio de sua militância e de seus livros, Amelinha nos ajuda a compreender não apenas os impactos da ditadura, mas também o papel das mulheres na construção da democracia brasileira.

O que mais gosto em sua escrita é que ela não fala de feminismo como algo distante ou

restrito ao universo acadêmico. Seus textos têm vida. Têm experiência. Têm a perspectiva

de quem participou diretamente das transformações que ajudaram a moldar os debates que fazemos hoje. Ler Amelinha é perceber que os direitos conquistados pelas mulheres foram resultado de muita organização, enfrentamento e coragem.


Entre suas obras mais conhecidas está Breve História do Feminismo no Brasil, uma

leitura fundamental para quem deseja entender como os movimentos feministas surgiram e se fortaleceram no país. O livro apresenta essa trajetória de forma acessível, mostrando que a história das mulheres é também a história das lutas por cidadania, igualdade e democracia.

Já em Contos da Cela 3, encontramos uma narrativa mais íntima e profundamente

sensível. A obra revisita memórias do período em que Amelinha esteve presa durante a

ditadura militar e apresenta relatos marcados pela dor, mas também pela solidariedade,

pela amizade e pela resistência. Entre os personagens que acompanham essas lembranças está a inesquecível Lagartixa Linguaruda, figura que atravessa a narrativa trazendo leveza, imaginação e humanidade a um contexto de extrema violência. Por meio de suas histórias,

Amelinha revela não apenas as marcas deixadas pela repressão política, mas também a capacidade de encontrar afeto, humor e esperança mesmo nos momentos mais difíceis.

São páginas que nos lembram que, por trás dos acontecimentos históricos, existiam

mulheres reais, com medos, sonhos e uma impressionante vontade de sobreviver.

Enquanto lia suas obras, pensei muitas vezes em quantas histórias foram apagadas ao

longo do tempo. Quantas mulheres tiveram suas experiências reduzidas ao silêncio.

Amelinha faz justamente o movimento contrário: ela recupera essas memórias e nos

convida a olhar para elas com atenção e responsabilidade.

Talvez por isso sua trajetória continue tão atual. Em tempos em que a memória histórica é frequentemente disputada, sua voz nos lembra que recordar não é permanecer no passado.

É compreender o presente e proteger o futuro. É reconhecer que a democracia precisa ser cuidada todos os dias.

Ao final daquele encontro das Promotoras Legais Populares, saí com a sensação de que havia conhecido alguém verdadeiramente especial. Não apenas uma ativista, escritora ou referência do feminismo brasileiro, mas uma mulher que transformou sua própria história em um compromisso coletivo com a verdade, a justiça e a memória.

E talvez seja por isso que Amelinha Teles continue inspirando tantas pessoas: porque sua

trajetória nos mostra que resistir também pode ser um ato de generosidade. Que

compartilhar memórias é uma forma de preservar a história. E que mulheres como ela nos lembram, todos os dias, da importância de não esquecer para que nunca mais se repita.




Sou Elen de Souza, escritora, jornalista, socióloga e mestra em Marketing Digital. Sou autora

do livro Feminismo, Pós-Verdade e Fake News: os Desafios na Era das Redes Sociais,

pesquisadora das relações entre gênero, comunicação e tecnologias digitais, e vencedora do II

Prêmio Laurel Verbum de Literatura 2026, na categoria Jornalismo de Entretenimento.

Feminista, integrante da União de Mulheres de São Paulo e Promotora Legal Popular, dedico

minha trajetória à comunicação, à educação e à promoção dos direitos das mulheres. Também

atuo como consultora voluntária de Comunicação e Captação de Recursos da AJASB

(Associação de Juventude para Ação Social de Benguela, Angola). Além disso, sou membro da Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil e fundadora da Editora Towanda.

Nesta coluna, compartilho histórias, reflexões e curiosidades sobre a vida e a obra de mulheres que marcaram a literatura, a ciência, a política, as artes e os movimentos sociais. Meu objetivo é tornar essas trajetórias mais conhecidas e mostrar como elas continuam inspirando o mundo contemporâneo. E, como toda escritora, conto com a companhia dos meus três pets : Lucas, Fabrício e Bernadete, que estão sempre por perto durante os momentos de leitura, pesquisa e escrita.

Você também pode me acompanhar no Instagram: @elen.de.souza.


MEU LIVRO ESTÁ AQUI ESPERANDO POR VOCÊ:

O autor da mensagem, e não o BLOG Laurel Verbum, é o responsável pelo comentário.

 
 
 

4 comentários

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Convidado:
09 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Amelinha uma mulher ao frente do seu tempo , excelente matéria

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Convidado:
09 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Essas história faz toda diferença

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Ulisses Cobucci
08 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Não conhecia sua história, porém é muito importante que sua voz cada vez mais seja ouvia para que além de não apagar nossa história, para que não se repita. Amei a matéria!

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Convidado:
há 2 dias
Respondendo a

Parabéns a escritora, jornalista e socióloga, Elen de Souza. Por compartilhar essa matéria tão importante, Amelinha Teles, é força é resistência é transformação. Os valores das mulheres estão se fortalecendo cada vez mais, temos que olhar para esse ser encantador com a mesma força de vitórias que elas transmitem em seus olhares. Sucesso para todas as mulheres.

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