A Notícia como Ficção:
- Sandra Lugli

- 4 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de jul.
O DIA EM QUE O TEMPO SUMIU
Por Sandra Lugli

A Realidade da Notícia:
Julho de 2025 foi marcado por extremos climáticos e um fenômeno astronômico
raro: o terceiro mês mais quente da história coincidiu com uma aceleração
momentânea da rotação da Terra, provocando alguns dos dias mais curtos já
registrados.
A Notícia como Ficção:
Estamos acostumados a dizer que o tempo passa mais devagar no interior. A vida na
metrópole é corrida, cheia de distrações e de empenhos, alguns difíceis de encarar. Seria
realmente muito bom se houvesse lugares onde o tempo passe lentamente.
Era julho, e na cidadezinha onde morava Juliana, algo estava acontecendo. As cigarras
cantavam em horários imprevistos, os idosos não achavam uma sombra onde repousar e
o Sol se punha mais rápido, escondendo-se o quanto antes.
Aquele mês estava sufocante. Seu Arlindo, na rádio, anunciou: “Cientistas dizem que
este é o terceiro julho mais quente de toda nossa história! ”
Dona Carmem, que regava suas roseiras todas as manhãs, viu as flores murcharem antes
do meio-dia. “O sol está zangado”, disse, abanando-se com um jornal.
Não era só o calor. O velho e imperturbável relógio da praça, referência centenária para
os habitantes, começou a adiantar os ponteiros. Era pouco para os olhos, mas muito para
os corações inquietos.
Alguns se aventuravam em explicações, ancoradas em medos e crenças.
O Prof. Elias tentou explicar a seus alunos:
- Segundo os cientistas, o calor está sendo causado por uma aceleração da rotação da
Terra.
- Como assim prof.? Nós vamos bater?
- Prof, se correr demais, nós podemos cair da Terra?
- Não! É como se o planeta estivesse girando mais rápido e tentando escapar de si
mesmo!
Ele achou que essa explicação havia aliviado a situação, mas na realidade a cara de
espanto dos alunos era inexorável.
As manhãs ficaram breves, as tardes apressadas e à noite, quando o céu parecia mais
próximo e o vento mais quente, tornava-se muito difícil dormir.
Mas não era só na cidadezinha de Juliana que o tempo “estava sumindo”. Moradores
das redondezas começaram a relatar visões. Gente acordando antes de ir dormir.
Crianças dizendo que o tempo “pulava”. Um homem jurou que viu o sol nascer duas
vezes no mesmo dia!
As árvores da praça central começaram a morrer em silêncio.
E então vieram as chuvas. Não como alívio, mas como castigo. Torrentes que
arrastavam casas, carros, postes, memórias. Gente.
No último dia de julho, Dona Carmem olhou o céu e murmurou:
- Isso não é normal....não é nada normal... Regou suas últimas rosas como quem planta
esperança num mundo que gira depressa demais.
E todos, naquela noite, foram dormir mais cedo, já que sentiam que o tempo parecia ter-se perdido. O calor, a chuva, o giro apressado do planeta, tudo conspirava para lembrar que o mundo estava mudando. Que o que temos são somente as nossas lembranças. E que, talvez, o tempo não esperasse mais por ninguém.
Sandra VR Lugli é escritora e autora do livro Uma tênue linha...entre Ilusão e Realidade.
Na editoria Realidade em Prosa, você confere contos ficcionais inspirados em notícias reais.

Sandra VR Lugli reacende a paixão pela escrita após uma sólida trajetória nas Ciências e no mundo empresarial. Sua voz literária é intimista e delicada, entrelaçando fatos históricos com memórias afetivas, ancestralidade com a consciência de identidade. Autora do premiado livro de contos Uma Tênue Linha, Sandra cultiva uma escrita sensível e envolvente, capaz de revelar beleza até nos aspectos mais sombrios da vida. Em tempos de excesso de informação nas redes sociais, ela convida o leitor a desacelerar e mergulhar em narrativas que despertam reflexão, emoção e encantamento. Um convite amoroso ao universo da literatura feita com verdade e ternura.
Sandra VR Lugli
Escritora do livro
Uma Tênue Linha
Instagram: @umatnuelinha
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O autor do texto, e não o BLOG Laurel Verbum, é o responsável pelo comentário.






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