A Estante do Mês; A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS – O perigo dos livros
- Solange Sólon Borges

- há 3 dias
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Por Solange Sólon Borges
A censura é sempre uma admissão de covardia intelectual ― Alberto Manguel – escritor, tradutor, ensaísta e editor argentino
Em tempo em que livros ainda sofrem censura ou questionamentos sem fundamentos sólidos, este título promove uma discussão necessária, quando parece que estamos imersos em um mundo distópico que nutre desprezo pela cultura e pelo conhecimento. A ignorância leva ao cerceamento e a justificativas rasas, tal qual um pires rachado.
Só pra contextualizar: O avesso da pele, de Jeferson Tenório, foi alvo de censura pontual e recolhimento por parte de algumas secretarias de educação, após críticas ao seu conteúdo, ao abordar racismo e sexualidade; e O menino marrom, de Ziraldo, suspenso temporariamente em escolas de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais.
Fatos que nos lembram de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury; o Grande Irmão, de 1984, e a fábula política A revolução dos bichos, ambos de George Orwell, mais Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e a superficialidade a imperar em um mundo futurístico e assustador. E pode-se complementar esta lista com o mais contemporâneo, O Conto da Aia, de Margaret Atwood.
No pano de fundo de todos eles, sociedades controladas por um Estado censor, ditatorial, que aposta no revisionismo histórico a fim de apagar o passado, fraturar o livre-arbítrio e moldar o futuro rumo à criação de indivíduos insípidos, não críticos, gado controlado.
No livro A biblioteca, o protagonista – sem nome próprio – começa a trabalhar em uma repartição pública com a missão de examinar livros que sejam impróprios para circulação. Ou seja, aqueles que façam alusões a Deus, ao governo ou a sexo. Para as prateleiras das livrarias existentes e descaracterizadas, apenas os títulos insípidos, entretenimento fútil, que nada acrescenta.
Chamado apenas de “o novo censor”, o protagonista não pode interpretar o que lê, pois o objetivo não é proibir apenas os livros, mas igualmente a imaginação, os sonhos e os desejos, elementos perigosíssimos e desestabilizadores do sistema. Para desespero dele, a filha tem a imaginação fértil e vive muito contente em seu mundo onírico.
O ponto de virada se dá quando recebe a tarefa de analisar novas edições de obras clássicas e o sono vai embora de vez... os personagens o habitam, tomam conta de seus sonhos, ou melhor, da sua insônia.
Daí em diante, o roubo de exemplares será inevitável até descobrir e se juntar a uma rede clandestina, que mantém oculta uma grande e misteriosa biblioteca – a resistência – para salvar exemplares inestimáveis da destruição.
O texto, convidativo, é povoado por referências a Zorba, o grego; Pinóquio e Fahrenheit 451... E, ainda, Alice no País das Maravilhas – com relógios malucos e seus coelhos que “cagam” à vontade na repartição de censura. Uma metáfora que pode bem representar o ingresso no desconhecido, a busca por conhecimento e a luta contra o tempo incontrolável que escorre pelos dedos de todos nós.
É de se perguntar se o Novo Censor é ele mesmo apenas mais um personagem dentro do livro ou se o livro é o verdadeiro protagonista na tessitura desse romance. Um quebra-cabeça, mas que leva à reflexão nesse cenário de metalinguagem – do livro pelo livro – da função da ficção e da própria condição humana.
É ler para descobrir as tramas que a autora tece – um diálogo entre clássicos e modernos e a literatura do Ocidente e do Oriente e se divertir.
Para mim, uma leitura agradável, que não requer uma avaliação absolutamente crítica e aprofundada, mas que me fez voltar aos demais livros citados para lembrar que literatura e livros são revolucionários e que estar atenta aos ataques contra eles é missão de quem ama as letras e luta pela preservação das suas histórias e da nossa própria história.
A Biblioteca do Censor de Livros, primeira obra da escritora kuwaitiana Bothayna Al-Essa publicada no Brasil. O livro foi finalista do National Book Award na categoria tradução, 2024, e vencedor do prêmio Sharjah de criatividade árabe, na categoria romance, 2021.
A biblioteca do censor de livros, de Bothayna Al-Essa, que é do Kwait. Editora Instante, 223 páginas. Gênero: ficção árabe. R$ 79,00.
Solange Sólon Borges- Colunista




Excelente texto! Fiquei com vontade de ler o livro indicado. E não sabia que o livro o Avesso da Pele havia sido censurado dessa forma.