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O Soft Power Britânico nos Romances de Época:

Por Carol Rangel

Poucos gêneros literários atravessaram tantas fronteiras culturais quanto os

romances de época ambientados na Inglaterra. Em diferentes partes do mundo, milhões

de leitores continuam fascinados por bailes luxuosos, propriedades aristocráticas,

casamentos arranjados e pelas rígidas regras sociais da monarquia britânica dos séculos

XVIII e XIX. O mais curioso nesse fenômeno é que grande parte desse público vive em

países que jamais tiveram tradição aristocrática semelhante, como Brasil, Argentina e Estados Unidos. Ainda assim, o imaginário construído pela literatura britânica permanece extremamente poderoso e desejado.

Esse fascínio não acontece por acaso. Ao longo dos séculos, a Inglaterra

transformou elementos de sua própria história em símbolos universais de elegância,

romance e sofisticação. Esse processo pode ser compreendido através do conceito de

soft power, termo das Relações Internacionais que define a capacidade de um país

influenciar outros por meio da cultura, dos valores e do entretenimento, sem recorrer à

força militar ou econômica. Quando milhões de leitores ao redor do mundo consomem

histórias ambientadas na aristocracia britânica, a Inglaterra fortalece sua influência

cultural de maneira indireta, mas extremamente eficaz.

Dentro desse fenômeno, Jane Austen ocupa um papel central. Considerada uma

das maiores autoras da literatura inglesa, Austen consolidou as bases do romance de

época moderno ao retratar, com ironia e crítica social, a vida da pequena nobreza rural

britânica do início do século XIX. Obras como Orgulho e Preconceito estabeleceram

elementos que definem até hoje o gênero: protagonistas femininas inteligentes,

romances construídos lentamente e conflitos sociais ligados ao casamento e à posição

social.

Curiosamente, embora o romance de época aristocrático inglês domine o

imaginário mundial, grande parte das autoras contemporâneas mais populares do gênero

são norte-americanas. O chamado Historical Romance moderno foi consolidado pelo

mercado editorial dos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 2000, através de

editoras como Avon e Harper Collins. Entre os principais nomes norte-americanos estão

Julia Quinn, Lisa Kleypas, Tessa Dare e Loretta Chase. Entre as britânicas, destacam-se

Mary Balogh e Lorraine Heath.


O audiovisual também teve papel decisivo na expansão global desse gênero. As

adaptações para cinema e streaming ampliaram enormemente o alcance do romance

histórico inglês, levando o universo aristocrático britânico para milhões de espectadores.

Nesse contexto, Julia Quinn tornou-se uma das figuras mais influentes do romance

histórico contemporâneo. Sua série de livros inspirou Bridgerton, produção da Netflix

responsável por revitalizar mundialmente o interesse pelos romances ambientados no

período regencial inglês. Após a estreia da adaptação, os livros da autora explodiram em

vendas e conquistaram uma nova geração de leitores, sendo traduzido em diversas

línguas.

Outras produções também fortaleceram esse imaginário aristocrático britânico.

Downton Abbey popularizou narrativas sobre a nobreza inglesa e suas transformações

sociais no início do século XX, enquanto The Crown reforçou o fascínio global pela

monarquia britânica contemporânea. Juntas, essas obras demonstram como a Inglaterra

conseguiu transformar sua própria história em um produto cultural altamente

exportável.

A força do romance histórico inglês impacta diretamente escritores de outros

países, especialmente na América Latina. Muitos autores relatam ouvir do mercado

editorial que “romances de época ambientados em outros lugares não vendem”. Como

consequência, diversas escritoras brasileiras recorrem aos tradicionais cenários

britânicos — com duques, condessas e temporadas londrinas — por acreditarem que

esse universo possui maior aceitação comercial.

Enquanto isso, países com enorme riqueza histórica, como Brasil, Portugal e

Espanha, ainda ocupam espaço reduzido nesse mercado. Contextos como o Brasil, os

processos de independência latino-americanos ou as cortes asiáticas raramente recebem a mesma projeção internacional que a aristocracia inglesa, apesar de seu enorme potencial narrativo.

Tentando driblar essa tendência, eu, Carol Rangel, escritora paraibana, busco

furar essa bolha ao escrever romances de época ambientados no Brasil Imperial. Minha

trilogia As Damas do Café acompanha a trajetória de três irmãs, filhas de um poderoso

Barão do café do Vale do Paraíba, em histórias marcadas por amor, conflitos familiares

e busca por liberdade em uma sociedade profundamente desigual.


Escrever sobre o Brasil Imperial também significa encarar as contradições da

nossa formação histórica. A riqueza das fazendas de café estava diretamente ligada ao

trabalho escravizado de milhares de homens e mulheres negros, enquanto os povos

indígenas já haviam sido profundamente impactados pela colonização. É desse encontro

entre indígenas, africanos e europeus que nasce a formação do povo brasileiro, criando

uma identidade cultural singular e complexa.

O primeiro volume da série, Amar com Liberdade, foi publicado de forma

independente em 2025, seguido por Amar com Igualdade, lançado em 2026.

Atualmente, trabalho na escrita do terceiro volume da trilogia.

Porque, convenhamos: o Brasil do século XIX tinha absolutamente tudo que

um romance de época precisa. Fazendeiros poderosos, heranças, romances proibidos,

escândalos sociais, títulos de nobreza, saraus luxuosos e até um imperador. A diferença

é que, em vez de duques caminhando sob a neblina londrina, temos mocinhos

brasileiros enfrentando o calor carioca e, provavelmente, suando muito mais!



Carol Rangel - Colunista


Escritora e membro da ABHL

Doutora em Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa

Graduada em Direito e Jornalismo pela UFPB

Finalista do Prêmio Laurel Verbum de Literatura de Entretenimento 2026 .

 
 
 

1 comentário

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Elen
há 2 dias

Excelente texto! Parabéns

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