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A Literatura da Superação; Entre Cicatrizes e Páginas:

Atualizado: há 4 dias

Por Karen Brandão


Entre Cicatrizes e Páginas

Existem livros que entretêm. Outros emocionam. Mas

existem aqueles que atravessam o leitor de uma forma

tão intensa que se tornam impossíveis de esquecer. Nada

Pode Me Ferir, de David Goggins, é exatamente esse tipo

de obra: brutal, desconfortável e profundamente

transformadora.

Eu conheci este livro através de um presente. A pessoa

que me entregou disse algo que ficou marcado em mim:

que a minha história se identificava com a história de

David Goggins. E, ao começar a leitura, eu entendi

exatamente o que aquilo significava.

Existem dores que não aparecem para o mundo, mas que

moldam completamente quem somos. Ao longo da minha

vida, além de ter vivido violência doméstica sendo mãe,

também carreguei marcas profundas de desprezo

materno e paterno. E talvez por isso a leitura desse livro

tenha me atingido de forma tão pessoal. Em muitos

momentos, não parecia apenas que eu estava lendo

sobre outra pessoa. Parecia que eu estava encarando

partes da minha própria história.


David Goggins não escreve tentando parecer um herói

perfeito. Pelo contrário. Ele expõe seus traumas, suas

inseguranças e os episódios mais difíceis de sua infância.

Crescer em um ambiente violento fez com que ele

conhecesse o medo muito cedo. Ele relata momentos em

que presenciava sua mãe sendo agredida pelo próprio pai

e, em algumas situações, ao tentar defendê-la, também

acabava sendo vítima da violência.

Ler isso é doloroso porque nos obriga a olhar para uma

realidade que ainda existe dentro de muitos lares. A

violência doméstica não destrói apenas quem sofre

diretamente as agressões. Ela destrói o emocional das

crianças, cria traumas silenciosos e transforma a casa — que deveria ser um lugar seguro — em um espaço de medo constante.

Além da violência familiar, Goggins também enfrentou o

racismo de maneira brutal. Sendo um homem negro nos

Estados Unidos, ele cresceu convivendo com

humilhações, exclusão e preconceitos constantes. E o

livro mostra como o racismo vai além de ofensas

explícitas. Ele se manifesta nos olhares, na rejeição, na

tentativa de diminuir o valor humano de alguém apenas

pela cor da sua pele.

Mas talvez o ponto mais forte da obra seja mostrar que

algumas das maiores batalhas acontecem dentro da

mente. Existem pessoas que parecem fortes por fora

enquanto lutam silenciosamente contra dores emocionais

profundas. E foi exatamente isso que mais me conectou à

leitura.


Enquanto autora e mulher, lendo este livro, eu tive forças

para entender algo que durante muito tempo minha

mente tentou me impedir de acreditar: eu posso vencer

qualquer barreira. Posso vencer obstáculos emocionais,

traumas internos e dificuldades da vida. Não porque a dor

desaparece, mas porque existe uma escolha diária entre

desistir e lutar.

David Goggins transformou sofrimento em disciplina.

Transformou rejeição em combustível. E embora cada

pessoa tenha sua própria caminhada, sua história nos faz

perceber que não somos obrigados a permanecer presos

ao que nos aconteceu.

A sociedade costuma admirar histórias de superação sem

compreender o peso das cicatrizes que vieram antes

delas. As pessoas gostam da vitória, mas raramente

enxergam o quanto alguém precisou sobreviver

emocionalmente para chegar até ali. Nada Pode Me Ferir

quebra essa visão superficial ao mostrar que superar não




significa nunca mais sentir dor. Significa continuar mesmo

ferido.

A literatura da superação existe exatamente para isso:

para lembrar que pessoas quebradas também podem

reconstruir a si mesmas. E talvez seja por isso que livros

como esse impactem tanto. Eles não oferecem fórmulas

mágicas. Eles oferecem verdade.

Ler a história de David Goggins me fez refletir sobre

quantas pessoas vivem carregando traumas silenciosos

enquanto tentam seguir suas vidas normalmente. Muitas

vezes, nunca sabemos completamente o que alguém

enfrentou até chegar aqui. Algumas pessoas

sobreviveram ao abandono, à violência, ao preconceito e

à rejeição sem jamais terem tido espaço para falar sobre

isso.

E é justamente aí que a literatura se torna tão necessária.

Porque um livro pode alcançar lugares emocionais onde

muitas palavras não conseguem entrar. Às vezes, uma

história faz alguém perceber que não está sozinho em sua

dor. Às vezes, um livro devolve força para continuar

vivendo.

No final, Nada Pode Me Ferir não é apenas sobre

resistência física ou mental. É sobre humanidade. Sobre

cicatrizes. Sobre enfrentar sombras internas que ninguém

vê. E principalmente sobre entender que a dor não

precisa ser o último capítulo da nossa história.

Hoje, olhando para minha própria trajetória, eu entendo

que vencer não significa nunca cair. Significa escolher

levantar mesmo depois de ter sido ferida pela vida, pelas

pessoas e pelas circunstâncias.

Porque algumas cicatrizes sangram em silêncio. Mas

outras se transformam em páginas capazes de salvar

alguém.



Karen Brandão - Colunista


Karen Brandão é escritora, blogueira, mãe de três filhos e formada como Técnica em Administração. Retomou os estudos em 2021, aos 27 anos, acreditando que nunca é tarde para recomeçar e transformar sonhos em realidade. Autora do livro A Infância que Me Roubaram e com sua segunda obra em fase de publicação, utiliza a escrita como ferramenta de reflexão, superação e inspiração.

Finalista do Prêmio Laurel Verbum na categoria Jornalismo e Entretenimento, Karen é apaixonada por livros que abordam desenvolvimento humano, resiliência e transformação pessoal. Entre suas leituras favoritas estão Nada Pode Me Ferir e Nada Pode Me Parar, de David Goggins, obras que influenciaram profundamente sua visão sobre força mental e superação.

Acredita que toda pessoa é capaz de evoluir, aprender e se tornar uma versão melhor de si mesma. Em sua coluna Entre Cicatrizes e Páginas, compartilha reflexões sobre literatura, vida, recomeços e o poder que as histórias têm de transformar pessoas.


MEU LIVRO ESTÁ AQUI ESPERANDO POR VOCÊ:

O autor da mensagem, e não o BLOG Laurel Verbum, é o responsável pelo comentário.

 
 
 

11 comentários

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Hildo Bastos
há 6 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Caraca um amigo meu me indicou esse livro no último final de semana e ao abrir a sua matéria fiquei chocado em ver que se tratava do mesmo livro, só não tive a oportunidade de ler ainda, mas com certeza vou ler. Você está de parabéns pela linda matéria.

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Convidado:
há 7 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

literatura de superação uma terapia para os tempos atuais, excelente matéria.

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Respondendo a

Obrigada! exatamente o que trarei aqui.

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Clarice Ziller
08 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A beleza da literatura é essa capacidade de tocar nossos segredos em público. A conversa é entre você e o livro, ninguém ao redor imagina o que está sendo trocado ali. As palavras que muitas vezes nos ferem enquanto lemos não têm rosto, não soa como ofensa, crítica ou julgamento, não é pessoal. Karen, você colocou meu sentimentos em palavras. Como precisamos de literatura de superação! Parabéns por ser parte daqueles que nos permitem encontrar cura ao conhecer histórias que carregam feridas como as nossas!

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Convidado:
09 de jun.
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Oi diva sim que podemos inspirar as outras pessoas.

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Jennifer
08 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Gostei especialmente da ideia de que a superação não significa ausência de dor, mas a decisão de continuar apesar dela.

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Convidado:
09 de jun.
Respondendo a

Exatamente a vida e bela demais pra ficarmos sofrendo.

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Kesley Morais
04 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

De fato e um grandiosissimo Livro sobre a Vida de David Goggins, o que leva a inspiração que sua vida foi de forma no mesmo cotidiano na dificuldade da vida, e mesmo assim e a representação de uma pessoa que estava literalmente a baixo do fundo do posso e mostrou que e possível subir com tanta garra e fé e que não precisa de nenhuma escolha ruim para que tenha uma vida digna! Merece pela pessoa quer é, Forte e uma grande Mãe Valente e Guerreira, meus Parabéns e minhas condolências escritora Karen Brandão.

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Convidado:
09 de jun.
Respondendo a

Gratidão belas palavravras

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